sábado, 24 de março de 2018

Do (des)funcionamento das coisas por aqui

Depois de uma longa ausência da minha residência em Hamburgo eis que regresso e deparo-me com um modem incapaz de controlar a sua alegria por me ver, exibindo uma eufórica coreografia de intermitentes luzes verdes e encarnadas. Como bom dono que sou, logo o fui afagar e fiz-lhe juras de um amor e carinho indescritível nas humildes páginas virtuais que aqui vou condensando sem qualquer critério.
Liguei o wifi do telemóvel e descubro que todo o espectáculo pirotécnico era afinal denunciador de uma anomalia e não de felicidade extrema.
Como não sou pessoa de desistir assim às primeiras, resolvi afagá-lo de novo pedindo com carinho que funcionasse.
Não me ouviu e continuou nas suas celebrações multicolores a roçarem um género de ebriedade natalícia.
Ameacei desligá-lo.
Fi-lo mesmo, reiniciando-o sem dó nem piedade.
Nada.
Seguiu-se então o momento que qualquer pessoa sã neste país teme: ligar à assistência técnica da O2. De forma a que os leitores residentes fora da Alemanha possam perceber a dimensão da coisa, devo esclarecer que recebi informações seguras de que a grande coligação que irá governar este país só foi possível quando a senhora Merkel ameaçou os demais parceiros que iria chamar os serviços técnicos da referida empresa caso não se decidissem a formar governo. A isto respondeu então o trauliteiro ministro da Baviera: Passt schon 
Liguei, pois. Após terem confirmado que não conseguiam resolver o problema, disseram que teria que receber a visita de um técnico. Confesso que temi o pior: estas coisas na Alemanha são sempre um convite para uma longa espera. No Consulado Português de Hamburgo consegue-se uma marcação no prazo de três meses (quando uma pessoa tem sorte).
Ao contrário do esperado, propuseram-me para o dia seguinte (quinta-feira) em dois períodos distintos: ou entre as 8 e as 14 ou entre as 14 e as 20. Escolhi o primeiro.
Às oito em ponto estava eu já a pé de pequeno-almoço tomado e pronto para qualquer eventualidade. Contudo a eventualidade não ocorreu até às 15 horas. Ligo para o serviço de apoio ao cliente e quando os informei que tal e coiso o técnico não tinha aparecido, agradeceram-me a informação, mas já o sabiam pois o técnico tinha ligado a dizer que estava doente logo pela manhã. Como era quinta-feira, marcaram-me nova visita para segunda.
Eis que segunda chega. Um técnico ofegante de subir os quatro andares que antecedem o meu olha para o modem que continua em permanente festa como se tivesse caído para dentro do caldeirão das anfetaminas quando era bebé, e arranca o cabo da tomada, destruindo-o com uma dedicação extremada. Em seguida olha para mim e diz: o problema é do cabo. Ainda tentei sugerir que talvez fosse do modem em si, mas ele limitou-se a dizer que tinha que comprar um cabo novo.
Como sou um daqueles emigrantes obedientes, peguei na bicicleta e lá fui comprar um cabo, instalando-o sem pudores.
Curiosamente, não resolveu o assunto.
Nova chamada para os serviços técnicos que se prontificaram a enviar um novo modem, jurando que me chegaria às mãos no dia seguinte.
O dia seguinte passou e nada.
Novo dia a amanhecer e nada.
Num inspirado laivo procuro no site da DHL se por acaso havia alguma encomenda com o meu nome em algum lado. Havia. Pois claro que havia. Simplesmente não fui notificado.
Após me ter dirigido ao posto dos correios para ir levantar a encomenda com o modem, chego a casa e o que é que tenho no correio? Pois claro, a notificação que não tinha sido deixada no dia em que a encomenda tinha sido "entregue".
Ao contar esta desventura a um amigo alemão, recebi um leve sorriso de empatia e um: "welcome back to Germany".
Oh yeah, agora, mais do que nunca, sinto que já aterrei de corpo e alma nestas terras hanseáticas.
 

domingo, 11 de março de 2018

Quantos menos sonhos, mais adornos - Mia Couto

Deixar Santarém rumo ao interior do país é um vasto calvário de terras ardidas, de vidas que por ali ficaram perdidas num negro que nos acompanha durante quilómetros e quilómetros que se nos vao adentrando de forma indelével.
Ao fim de um tempo a vontade de fazer a piada fácil sobre o nome de terras como Cabeca Gorda,  Benlhevai ou Sarnadas desaparece e dá lugar a um sentimento furioso, tal como será porventura furioso o esquecimento a que estas pessoas se verao rogadas ano após ano, conhecendo apenas uma breve luz de atencao que breve se esfuma.
Com o inverno a tentar impor o seu tino, voltam a desaparecer estes nomes até novo verao. Caso ainda haja algo mais para arder.
Aterrar no interior é respirar fundo e tentar descobrir mais do que só Portugal. É, porventura, descobrir-me a mim mesmo em frases, expressoes, rostos e pedras que ali parecem plantados desde tempos imemoriais como se à espera estivessem que lá fosse com o meu eterno pasmo beber inspiracao directamente de um fonte inesgotável.
Ou nao.
Se ver a Santarém onde cresci desaparecer lentamente em lojas fechadas e prédios abandonados é penoso, este périplo pelo interior do país revelou-me um abandono mais acentuado, mais prédios e casas rogadas ao abandono, assim representando uma queda que julgo sempre ser final até nova visita e novo acentuar da desertificacao. 
E com este desertificar, sinto-me eu também a desaparecer, a envelhecer mais depressa num processo desesperancadamente irreversível até que reste apenas a sombra de uma alma e de um ser que a todo o custo vou tentando manter por estas outras terras tao distantes onde vou tentando ser apenas eu dia após dia.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Uma geringonça para a Alemanha, se faz favor

Há dois meses houve eleições na Alemanha: CDU com vitória pouco convincente, o descalabro da SPD, o regresso da FDP e a escandalosa entrada da AFD nas contas parlamentares. Isto são os factos iniciais.
Ciente de que governar é uma coisa séria onde não pode haver contradições, a senhora Merkel iniciou negociações para formar governo. Perante a recusa de um SPD desgastado de uma coligação governamental de quatro anos e tendo em Schulz um perdedor capaz rivalizar em maus fígados com o Jorge Jesus, virou-se a CDU para algo jamais visto por estas bandas: coligação com liberais e verdes, num acto que ficou desde logo conhecido como a coligação Jamaica ( ao preto da CDU juntava-se o amarelo da FDP e o mais óbvio verde dos verdes). E aí começou a faena: dia após dia os noticiários foram mostrando uma Merkel cada vez mais desgastada a anunciar que estavam no bom caminho, uns verdes a dizerem que apesar das diferenças algo se estava a resolver e um líder dos liberais em constante modo de "eu sou espectacular e não sei porque é que não reconhecem de uma vez por todas que quem devia mandar nisto era eu".  Ah, claro está que a esta constelação se teve que somar igualmente a presença de elementos da CSU que, como se sabe, mais do que o partido irmão da CDU na Bavaria, são gente que falam com sotaque curioso e que gostam de mostrar que isto de família, ao contrário dos amigos, é coisa que realmente não se escolhe.
Perante tão maravilhoso cenário capaz de encher as manchetes durante dois meses e de colocar a Jamaica no roteiro político da Alemanha, no que a meu ver poderia ter ficado conhecido como as Jamaica talks, o resultado das negociações foi aquele que se esperava de um país democraticamente maduro e sério: não resultaram.
Os verdes acusaram os liberais de não abrirem mão da exploração de carvão e de não cederem em relação às políticas de controlo indústria automóvel, a CSU insistiu em políticas mais próximas da extrema direita a fim de roubar eleitores à AFD e os liberais, na figura do seu líder Christian Lindner, não perceberam porque é que ninguém reconheceu que eles são espectaculares e por isso deveriam ser eles a mandar nisto tudo.
Novas eleições!,  gritou-se do lado do SPD e eu de repente imaginei o ar de satisfação da AFD ao poderem adicionar ao seu manifesto anti político e  antidemocrático um: vejam a inépcia dos políticos convencionais. Se ganharmos, não se preocupem: dispensaremos automaticamente todos os demais políticos.
A isto tudo reagiu o presidente alemão com um pedido de diálogo ao seu SPD e uma Merkel a dizer que só governa com certezas.
Na segunda abre-se nova ronda de negociações para a recriação de um bloco central perante o cepticismo do senhor Schulz, o que me faz ter vontade de pedir ao ministro dos negócios estrangeiros português que venha à Alemanha vender o mais recente conceito político português da geringonça que aparentemente funciona mas que ninguém sabe bem porquê. E nestas coisas a ignorância é a minha mais fiel amiga. E os amigos, como se sabe, podem-se escolher.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Viajar

Quando viajo sou sempre invadido por um mesmo sentimento de pensar em como seria a minha vida nesse outro local, que outros hábitos somaria aos indeléveis que já tenho (e que porventura nunca virei a perder, engrandecendo-os a cada dia que passa).
Para tal nao preciso de destinos exóticos, contentando-me em imaginar como seria viver na Figueira da Foz, Évora ou até mesmo Óbidos. Claro está que também já sonhei em viver na Índia, no Irao, na Catalunha ou até mesmo na minha Santarém natal que por vezes se enche de fantasias místicas entre um passado e um tempo qualquer futuro que nunca sei se se chegará a concretizar.
Com o AirBnB tenho visitado e habitado casas que tem tido a capacidade de me encher de passados de outras pessoas, de outras vidas e outros modos num género de complemento perfeito ao que se passa quando leio.
Sei que tudo isto poderá nao passar de quimeras e sonhos de conseguir ser diferentes pessoas numa só vida, mas que fazem feliz.
E por isso mesmo creio que nao deixarei nunca de visitar e revisitar sítios, de ler livros situados em destinos mais ou menos exóticos, sentindo-me mudar e metamorfosear, num crescimento irreal que acabrá por me compor enquanto ser real.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Catalunya

Antes de comecar este texto devo confessar que a minha relacao com a Catalunha é sobretudo emocional, fruto de todas as vivencias que tenho vindo a acumular nas minhas visitas anuais e das pessoas com quem me tenho cruzado e me tem inspirado para seguir os meus caminhos.

Hoje segui de perto e com o coracao nas maos as declaracoes do presidente da Generalitat Carles Puigdemont. Da mesma forma como segui e sofri com a brutalidade policial a 1 de Outubro aquando do referendo "inconstitucional" tendo em vista uma independencia de Espanha.
Esperava, confesso, uma declaracao emocionada e vívida de independencia, de afirmacao de uma nacionalidade e do fim do que considero ser um abuso de um país em relacao a outro. E isto defendo-o tendo em conta de que a Catalunha é, para mim, um país, com tudo o que isso acarreta.
A todos os que poem a questao nacionalista como uma questao económica e de teimosia das estranhas gentes que constroem torres humanas e comem botifarra, pergunto-me apenas como se sentiriam os portugueses caso o nosso presidente fosse detido e fuzilado (como aconteceu com Companys em 1940) e que no final da ditadura opressora nao fosse reconhecida de volta enquanto país livre e democrático. Esta tem sido uma das questoes que raramente tenho visto abordada pelos comentadores portugueses ou até mesmo pelos alemaes, que se limitam a afirmar que a catalunha sempre foi Espanha.
No dia 1 de Outubro milhoes de catalaes foram votar, mesmo contra vontades políticas e judiciais que tudo fizeram para o impedir. E tudo, refiro-me a atitudes democraticamente questionáveis como cortes de redes de internet, aameacas de prisoes a diversos dirigentes, multas que subiriam a 600 mil euros aos colaboradores, à prisao efectiva de pessoas e, claro está, a uma repressao policial tendo em vista uma política de medo, em muito semelhante às dos regimes ditatoriais.
Seguiram-se mais ameacas e atitudes mais incisivas como cortes financeiros, bloqueio de contas bancárias (como as da Omnium Cultural) ou o aliciamento para as empresas catalas se mudarem para solo espanhol. A vice-presidente de Espanha chegou mesmo a sugerir que Puigdemont deveria seguir os passos de Junqueras em 1940.
Contudo, Puigdemont ainda nao declarou a independencia e propos continuar com diálogos, aclarar situacoes e responsabilidades e tentar fazer um processo democrático e claro. Muito ao contrário de Rajoy que tem sistematicamente defendido solucoes judiciais para castigar os responsáveis, um pouco à semelhanca de um jogo de criancas.
A isto tudo tenho assistido perante a insistencia europeia em dizer que se trata de um problema interno espanhol.
Mas talvez nao o seja. Que diriam os responsáveis europeus se a Catalunha aceitasse o apoio e influencia de uma Rússia em crescimento e à procura de novos centros de influencia no mundo? Ou da China? Ou de milionários árabes?
Quando Portugal recuperou a sua independencia em 1640, também era inconstitucional. Assim como as diversas colónias americas de Espanha. E aqui estamos nós. Um Portugal mais ou menos livre e capaz de decidir por si próprio.
E eu, pessoa emocionalmente volútil e sem grande voto na matéria, sigo esperando novas,de coracao na mao aguardando nao ter que cantar como Chico Buarque:
 Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente, um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim

sábado, 12 de agosto de 2017

de lojas

Ao longo dos últimos trinta e cinco anos de vida tenho vindo a desenvolver uma paixao secreta por lojas que me alimentam fantasias quando as tenho por perto e saudades quando nao.
Tendo nascido em Santarém nos idos anos oitenta e vivido alguns bons e intensos momentos nos anos noventa, é impossível negar a influencia que a Caminho (na altura ainda independente da super poderosíssima Leya) teve, o encanto mágico da Bijou do Largo do Seminário (e dos seus pecaminosos pampilhos) ou a forma como as fotografias de outros tempos expostas na montra do Grandella Aires exerceram sobre mim.
Em Lisboa a Chapelaria Azevedo, o Nova América, a Ginjinha, a Casa do Alentejo, o Alves, o Botequim, entre tantos outros prosseguiram essa minha formacao.
Em Dezembro de 2012 aterrei em Hamburgo deparando-me com um novo mundo: dos supermercados turcos e do imperdível Lagos que constituem bóias de salvacao gastronómica, ou dos recantos imperdíveis do Altstädter Stube ou o Aalhus, ou das pequenas livrarias independentes como a Seitenweise ou a Zweieinsdrei, que vieram conferir novos mundo a este meu mundo.
No outro dia, e meio a jeito de despedida, fui até Wandsbeker Chaussee à 1001 Nachts, loja de produtos orientais, liderada pelo Maddy, egípcio surpreendente que faz as suas próprias misturas para os tabacos de narguilé. Ao contrário de muitas lojas, ele nao se limita a vender. Na realidade, creio que é impossível lá ir e comprar seja o que for sem ter que falar com ele, pelo menos meia hora. Os temas sao sempre inesperados: desde política a viagens, sem esquecer as inúmeras feiras porque vai passando. A fim de me abastecer antes de rumar a Portugal, reparei que parte das suas novas criacoes tinham nomes de mulheres. Talvez abusando da confianca, perguntei-lhe de onde é que aquilo vinha. Ele sorriu-me, recusou mais uma chamada de um telemóvel que tocava incessantemente e explicou-me que se tinha vindo a dedicar a criar essencias que o faziam recordar várias mulheres.
Esta é a Paula, disse-me. Nem sei se ela se chamava assim porque na realidade nem falei muito com ela, mas o perfume que ela tinha era algo assim. Esta a Inez, que tinha uns olhos negros tao profundos como só no Egipto tinha visto. A Fatma, a Maria, a Ingrid e todo um rol de mulheres com quem nunca tinha ousado falar mas que o inspiraram para tais criacoes. Como nao sei escrever poemas, faco o que posso para nao me esquecer delas.
Compungido, abandonei a loja com meia dúzia de memórias de mulheres dentro da mochila, achando que amanha é bem capaz de nao vir a chover em Hamburgo

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Saramago

Hoje choveu em Hamburgo.
Mesmo estando oficialmente mergulhado no Verão, não é esta novidade merecedora de abertura de telejornais ou de portadas de jornais. Nem mesmo dos locais.
Contudo isso acarretou consigo a minha solene decisão de deixar a minha fiel bicicleta na cave e apanhar o metro. Ao entrar na carruagem fortemente grafitada fui recebido por um grupo de pessoas tão cinzentonas quanto o tempo. Como sempre faço, optei por me sentar num dos poucos lugares onde ninguém tinha os olhos pregados no telemóvel e dispus-me a prosseguir com a minha intensa leitura do Autostopper do Franz Hohler. à minha frente estava sentado um senhor na casa dos setenta, com o planalto central da cabeça calvo, fazendo-me lembrar o meu pai. Sorri levemente ao me confrontar com a semelhança.
O rosto, esse, não deixava de me ser familiar mas não prestei inicialmente muita atenção pois com isto de andar por aí a contar estórias às vezes tenho a sensação de conhecer toda e qualquer pessoa com que me cruze.
A voz automatizada anuncia a próxima estação: Sternschanze. Curioso para ver se ainda há resquícios da jornada de violência que assolou a cidade no passado fim de semana, interrompi a leitura e espreitei pela janela. O meu vizinho da frente também espreitava de forma melancólica pela janela e aí me apercebi de quem tinha à frente.
Não, não pode ser, pensei de forma tão abismada que temo mesmo que me tenham saído alguns murmúrios pelos meus lábios cerrados. À minha frente estava nada mais nada menos que o Saramago!
Sim, eu sei que já morreu. 2010. Lembro-me perfeitamente do dia em que a notícia me atingiu que nem uma pedra ao abrir o Público. De como nem trinta minutos tinham passado quando o Gonçalo me ligou a dizer se já sabia e de como ficámos os dois mudos durante uns bons minutos após termos sussurrado em uníssono um "Foda-se puto..."
Mas para mim não havia dúvidas. Ali, tão perto, num cenário tão improvável, estava o Saramago.
Não escondendo o meu assombro e, porque não, desconforto, comecei a pensar no que lhe poderia dizer.
Seguiu-se Dammtor. A passagem pela Kennedybrucke com vista para o Alster. Hauptbahnhof.
O meu destino de jovem cumpridor com o seu trabalho accionou todos os sensores comunicando-me que tinha que sair.
Num turbilhão de emoções e pensamentos tentei formular algo inteligente para lhe dizer.
As portas abriram-se. Pessoas começaram a empurrar-se para saírem. Pessoas esperavam para entrar. Tentei fitá-lo com o meu olhar e quando, num lapso de tempo os nossos olhares se confrontaram, sorri tentando criar cumplicidade ibérica e aí saiu qualquer coisa:
- Sem que não é do seu agrado, mas amanhã voltará a chover em Hamburgo.
Não posso jurar, mas creio que me sorriu.
E eu, contrariando a multidão que sempre habita a Estação Central de Hamburgo, abandonei o metro de sorriso estampado no rosto.